Nesta quarta-feira, 30, o Paraná celebrou a conclusão do 1º Curso brasileiro de Brigadas Populares para Enfrentamento de Catástrofes - Maria Natividade, com mais de 50 educandos de diversos territórios da Reforma Agrária do Paraná.
A formação é fruto da aliança entre o Setor de Saúde do MST do Paraná, a Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) e a Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta do curso nasceu a partir da ação conjunta após os tornados que atingiram o estado no dia 7 de novembro do ano passado, quando o movimento organizou uma Brigada de Solidariedade às famílias atingidas pelos tornados, ao longo de 43 dias. Com ventos que ultrapassaram 300 quilômetros por hora, os tornados deixaram sete pessoas mortas e milhares ficaram feridas, em 11 municípios da região Centro-sul do estado.
As etapas presenciais e a formatura ocorreram em Laranjeiras do Sul, na associação comunitária do Assentamento 8 de Junho. O local é o mesmo que serviu como base de apoio à Brigada de Solidariedade do MST, por estar a pouco menos de 10 quilômetros de Rio Bonito do Iguaçu, município mais atingido pelo tornado, em novembro do ano passado.
A formação teve início em maio deste ano, com etapas presenciais e atividades teóricas online. A proposta é preparar pessoas dos territórios para atuar na prevenção, durante situações de emergência e também no processo de reconstrução das comunidades atingidas por situações extremas como enchentes e tornados, por exemplo.
Pioneiro no Brasil, o curso tem como objetivo preparar pessoas dos territórios para atuar na prevenção, durante situações de emergência e também no processo de reconstrução das comunidades atingidas por situações extremas como enchentes e tornados, por exemplo.
Maria Izabel Grein, integrante da coordenação do setor de Saúde do MST PR, que fez parte da brigada de solidariedade após os tornados e também compôs a organização do curso para brigadistas, que se formou nesta primeira turma, disse que “esse curso nasce porque nós estamos num momento histórico do planeta, muito difícil. Uma questão é o El Nino, outra é a destruição da natureza, temos a previsão de muitos eventos climáticos, e a população precisa estar preparada. O grande objetivo dessas brigadas é cuidar da vida, salvar vidas. Diminuir o sofrimento e ajudar as pessoas”.
O nome da turma homenageia Maria Natividade, integrante do Setor de Saúde do MST, falecida em junho deste ano. Dona Maria, como era conhecida, era participante ativa das ações de solidariedade do movimento, inclusive na Brigada de apoio às famílias vítimas dos tornados em Rio Bonito do Iguaçu. Maria era produtora agroecológica, moradora do assentamento Contestado, e também era educanda da turma de brigadistas.
Wagner Martins, professor de Estratégias de Gestão e Governança Territorial da Escola de Governo da Fiocruz e coordenador de integração estratégica da Fiocruz de Brasília, relata como surgiu o projeto do curso. “Nós estávamos fazendo uma oficina de construção do plano popular de Pinhão quando aconteceu o ciclone. Essa situação estimulou que nós fizéssemos uma atividade de formação para enfrentamento de desastres”.
A partir destes primeiros diálogos, a Força Nacional do SUS, a Fiocruz de Brasília, por meio da sua escola de governo, realizaram a formação e a construção de um plano popular de enfrentamento das consequências do possível fenômeno El Niño no Paraná.
“Nós aproveitamos a experiência da equipe de saúde do MST, que participou efetivamente das atividades de reconstrução da cidade, e tivemos a iniciativa de promover essa atividade, construindo um processo de reflexão estratégica sobre os pontos críticos do Paraná para que possamos realizar algumas das atividades que possam reduzir as ameaças, aumentar a nossa capacidade de eliminar as vulnerabilidades e aproveitar as potencialidades existentes”, completou.
A partir do curso, a Fiocruz vai lançar o primeiro Plano Popular Territorial para Enfrentamento dos Efeitos do El Nino, aqui no Paraná. A intenção é replicar a iniciativa em outros estados do país. “Nós estamos vivendo uma situação de crise climática muito grave e o que indica a ciência é que essa situação pode piorar com a chegada do El Niño no nosso país, portanto precisamos ter capacidade de aumentar a nossa resiliência evitando as perdas materiais e humanas indesejáveis”, reforça Martins.
União entre movimento popular e o Estado
A parceria com a Fiocruz e a Força Nacional do SUS é elemento central da formação. A proposta parte da articulação entre os conhecimentos construídos pelo MST nos territórios e a experiência técnica das instituições que atuam na área da saúde e em situações de emergência.
A formação é construída como uma troca de saberes, unindo experiência popular e conhecimento técnico. A iniciativa utiliza a metodologia da Plataforma Picaps, desenvolvida pela Fiocruz Brasília, e protocolos reconhecidos internacionalmente adotados pela Força Nacional do SUS. O curso articula educação popular em saúde, defesa civil comunitária, agroecologia e vigilância territorial para construir capacidades locais de autoproteção e inteligência cooperativa.
Para Maria Izabel Grein, do movimento, que atua desde os anos 1980 para o fortalecimento da organização de comunidades rurais, a formação deveria ser multiplicada. “E esse curso deveria ser reproduzido para toda a população, porque é muito importante, até que chegue o socorro público. No momento que acontece o desastre, se a gente sabe o que fazer, a gente pode salvar muitas pessoas, e amenizar muito sofrimento”. Para Grein, o curso amplia a capacidade do movimento de desenvolver ações de solidariedade de maneira organizada e qualificada.
Entre os conteúdos estudados e praticados no curso estão:
- primeiros socorros
- comunicação de risco e resposta inicial a desastres
- condução de diagnósticos participativos para mapeamento de riscos, vulnerabilidades e capacidades locais
- implementação de estratégias de redução de risco de desastres e adaptação climática comunitária
- desenvolvimento de sistemas locais de alerta e protocolos comunitários de emergência
- aplicação de práticas de saúde pública comunitária, saúde ambiental e vigilância popular; integrar saberes locais com ferramentas técnicas
- promoção de abordagens de resiliência socioambiental, agroecologia e soluções baseadas na natureza
- estruturação de redes territoriais de brigadas articuladas e integradas aos serviços públicos
Djair Soares, Coordenador do Núcleo de Educação Permanente da Força Nacional do SUS, explica que o curso foi organizado em sete módulos. Antes da formatura, a turma foi avaliada por meio de um simulado final. “Avaliamos como está a capacidade desse grupo para poder fazer o apoio, o atendimento às necessidades humanitárias durante essas emergências climáticas, essas situações de desastres que possam estar acontecendo”.
De acordo com o integrante da Força Nacional, o principal objetivo de fazer a formação comunitária, a partir da premissa de que o desastre é local: “As pessoas que vão estar inseridas dentro daquele território, ela vão ser afetadas por aquela emergência, e dar essas capacidade é promover a resiliência comunitária, é dar as condições possa responder inicialmente, até que a autoridade pública chegue para somar”.
O Diretor da Universidade Federal da Fronteira Sul - Campus Laranjeiras do Sul, Fábio Luiz Zeneratti, participou da cerimônia de entrega dos certificados e lembrou os esforços para a organização de uma grande rede de organismos públicos, junto com a sociedade civil organizada, em especial do MST, para reagir aos efeitos dos tornados.
“Não gostaríamos que eventos climáticos extremos voltem a acontecer, mas sabemos que pode acontecer, está acontecendo. Isso vai se tornar comum, porque a base produtiva do nosso país ainda não está nos parâmetros da agroecologia, que é pensar um modelo produtivo sustentável. Isso está pra se construir. Mas aos poucos, com força e coragem, nós vamos construindo”, garantiu.
Fotos: Juliana Barbosa
Fonte: Assessoria
Postado por: Jakeline - Laranjeiras do Sul
01/10/2026